Vi pela primeira vez a minissérie It, de 1990, dirigida por Tommy Lee Wallace, e gostei muito. Muito mesmo. Inclusive, fazendo uma comparação com as versões mais recentes de It, principalmente os filmes de 2017 e It: Capítulo Dois, eu gostei muito mais da atmosfera de terror criada aqui. Existe nessa minissérie um poder narrativo muito forte, uma construção de atmosfera de horror que funciona extremamente bem e um texto que eu gostei bastante, principalmente pelas falas e pela maneira como a história vai construindo seus personagens.
É uma minissérie que tem altos e baixos na execução de algumas cenas de terror, principalmente quando Pennywise aparece. As duas cenas que considero mais importantes nesse sentido são o desfecho da primeira parte, quando o Clube dos Perdedores enfrenta a criatura pela primeira vez, e a luta final, já com eles adultos. Acho as duas cenas um pouco mal executadas e sem a força que poderiam ter.
Mas consigo entender também que existe uma questão de contexto. Estamos falando de uma produção televisiva da ABC, exibida em horário nobre, com limitações próprias de orçamento e, principalmente, de quanto horror e violência poderiam ser apresentados na televisão aberta naquele período. Imagino que uma abordagem muito mais brutal pudesse afastar parte do público. Então, de certa maneira, suavizar o horror provavelmente foi também uma escolha necessária para que a minissérie conseguisse funcionar dentro da televisão daquele momento.
E, mesmo com essa suavização, It funciona muito bem. Pelo menos para mim, funciona demais. Assisti às duas partes de uma vez só, totalizando mais de três horas de duração, e em nenhum momento me senti cansado. Muito pelo contrário: fiquei bastante preso à história.
E acho que isso acontece principalmente pela construção dos personagens. A minissérie consegue fazer com que a gente se conecte emocionalmente com cada integrante do Clube dos Perdedores, entendendo suas personalidades, seus medos, suas relações e a maneira como eles se relacionam uns com os outros.
Outro aspecto muito importante de It e que já estava presente na obra de Stephen King é a maneira como a história trabalha o luto, os traumas e os medos de seus personagens. Cada integrante do Clube dos Perdedores carrega algum tipo de dor emocional. Bill Denbrough precisa lidar com a perda do seu irmão Georgie, Eddie Kaspbrak vive sob o controle de uma mãe superprotetora e sufocante, Beverly Marsh enfrenta uma realidade marcada por abusos e violência dentro de casa, enquanto outros personagens também carregam seus próprios medos e inseguranças. Hoje é muito comum vermos filmes de terror utilizando traumas como elemento central da narrativa, mas It já fazia isso há décadas. Stephen King sempre foi um autor muito interessado em explorar o lado emocional dos seus personagens e aqui isso fica muito evidente. O Pennywise funciona justamente como a materialização desses medos, assumindo diferentes formas para atormentar cada criança, transformando seus traumas e fobias em algo real e palpável. É uma ideia extremamente inteligente e que ajuda a dar ainda mais profundidade à história, fazendo com que o terror não esteja apenas na criatura, mas também nos conflitos internos enfrentados por cada personagem.


Falando sobre as interpretações, de maneira geral, são muito boas, tanto entre as crianças quanto entre os adultos. Mas, evidentemente, existe alguém que merece um destaque especial: Tim Curry.
Tim Curry é simplesmente maravilhoso como Pennywise. E fazendo uma comparação com Bill Skarsgård, acho a caracterização do Skarsgård muito boa, mas existe algo na interpretação do Tim Curry que considero muito especial. Ele consegue ser um palhaço espalhafatoso, engraçado, caricato e, ao mesmo tempo, extremamente assustador.
As expressões dele são muito marcantes. A maneira como ele aparece, como olha, como fala e como alterna entre o humor e a ameaça faz com que cada aparição de Pennywise seja memorável. E acho que Tim Curry consegue compensar, através da própria atuação, algumas das limitações de execução que existem nas cenas envolvendo o personagem.

É uma pena que justamente nessas cenas não exista aquela brutalidade, aquele horror mais explícito que poderia tornar alguns momentos ainda mais impactantes. Mas, mesmo assim, Pennywise continua funcionando muito bem porque Tim Curry é um ator excelente e consegue transformar o personagem em algo absolutamente icônico.
E não poderia deixar de citar a trilha sonora de Richard Bellis, que é outro elemento que funciona muito bem na construção da atmosfera. A trilha consegue transitar entre o horror, o drama, a nostalgia e aquela sonoridade circense associada ao Pennywise. Essa mistura de música orquestral, elementos eletrônicos, horror e música circense é uma grande sacada e ajuda muito a construir a identidade da minissérie. Bellis, inclusive, ganhou o Primetime Emmy de 1991 pela composição musical dramática da minissérie.
E acho interessante como essa música circense ligada ao Pennywise não funciona apenas como uma trilha para acompanhar o personagem. Ela ajuda a construir a própria personalidade dele. Existe algo aparentemente alegre e infantil naquela sonoridade, mas que, colocado dentro daquele contexto, se torna perturbador. É exatamente essa contradição que combina com o Pennywise de Tim Curry.
No fim das contas, It é uma minissérie que eu gostei muito mais do que imaginava. Não é perfeita. As limitações da televisão aparecem principalmente nas cenas de maior confronto com Pennywise, e isso acaba diminuindo um pouco o impacto de alguns momentos que poderiam ser muito mais assustadores.
Mas, quando penso no conjunto, o que fica para mim é uma obra com uma atmosfera de terror muito forte, uma narrativa muito bem construída, personagens que realmente despertam conexão emocional e uma interpretação absolutamente memorável de Tim Curry.
E acho que vale muito a pena que as pessoas deem uma chance para essa primeira adaptação televisiva da obra de Stephen King. Não apenas assistam às versões mais recentes ou à nova série: voltem para 1990 e conheçam essa versão também.
Porque, apesar das limitações, It continua funcionando muito bem. E, para mim, principalmente pela atmosfera e pelo poder narrativo, é uma experiência de terror muito mais interessante do que eu esperava encontrar.

