Poucas bandas na história do rock conseguiram construir uma trajetória tão longa e relevante quanto os Rolling Stones. Desde o início dos anos 1960, Mick Jagger, Keith Richards e companhia atravessaram diferentes gerações, estilos e transformações da indústria musical sem abandonar a identidade que os tornou um dos maiores nomes da história do rock. Entre clássicos incontestáveis, mudanças de formação, períodos de turbulência e inúmeras turnês, a banda chegou ao século XXI ainda ocupando um espaço que poucas de suas contemporâneas conseguiram preservar.
É justamente dentro desse contexto que surge “Foreign Tongues”, lançado em julho 2026. Mais do que simplesmente acrescentar outro capítulo à extensa discografia dos Stones, o álbum representa a disposição de uma banda veterana em continuar produzindo música nova, experimentando diferentes caminhos e, ao mesmo tempo, preservando elementos fundamentais de sua sonoridade. Depois de mais de seis décadas de carreira, a questão já não é provar que os Rolling Stones podem fazer sucesso, mas descobrir o que ainda podem oferecer artisticamente.
E é interessante perceber que Foreign Tongues chega em um momento em que outros gigantes de sua geração também continuam ativos. O lançamento praticamente coincide com “Splat” o novo álbum do Deep Purple, outro grupo que, assim como os Stones, se recusa a transformar sua história em uma simples peça de museu. São artistas que poderiam viver confortavelmente apenas do próprio legado, mas que continuam encontrando motivos para entrar em estúdio e criar.
É a partir dessa perspectiva que vale ouvir Foreign Tongues: não esperando encontrar uma nova versão dos Rolling Stones dos anos 1960 ou 1970, mas tentando entender o que uma das bandas mais importantes da história do rock ainda tem a dizer em 2026, mesmo com integrantes como o Keith Richards e o próprio Mick Jagger, estando com mais de 80 anos de idade. Algo muito claro neste álbum é que eles ainda estão com muita vitalidade e criatividade para mostrar para o público e os fãs da banda.
Pois bem, Foreign Tongues passeia por diferentes sonoridades sem deixar de carregar a assinatura dos Stones. E é justamente nessa variedade que estão alguns dos momentos mais interessantes do álbum.

“Rough and Twisted” abre o disco com um som bastante pra cima e muito característico da banda. A guitarra é marcante, a música tem energia e Jagger entrega um vocal impecável. É uma faixa que funciona bem justamente por não tentar esconder aquilo que o Rolling Stones sabe fazer de melhor.
Depois vem “Jealous Lovers”, que foi, para mim, um dos pontos mais fracos. A interpretação de Jagger me passou uma impressão curiosa, quase como se estivéssemos diante do “Freddie Mercury prateado”, sim, aquele personagem do Pânico na TV. A proposta vocal não me agradou e acabou sendo uma das poucas músicas que realmente não funcionaram para mim. Parece que ninguém foi capaz de colocar a mão no ombro do Jagger e falar: “Cara, isso aqui não ficou legal, acho melhor não ir para o álbum”. Enfim, mas infelizmente terminou indo.
Em compensação, “Mr. Charm” foi, até então, a minha música favorita. O refrão é extremamente chiclete, o ritmo é excelente e guitarra e bateria têm uma presença muito boa. Jagger novamente está impecável, e a música possui uma característica bastante comercial, mas sem parecer deslocada dentro da proposta do álbum.
“Ringing Hollow” muda completamente o clima. O violão ganha bastante espaço e conduz uma espécie de balada que gostei muito. Existe nela alguma coisa que me remete a Bob Dylan, principalmente pela atmosfera e pela simplicidade da composição. E, mesmo com o violão predominando, os solos de guitarra aparecem em momentos muito interessantes. É uma das faixas que mais me chamou atenção justamente por essa mudança de atmosfera.
“Never Wanna Loose You” leva o álbum novamente para uma direção mais pop. É outra música bastante comercial e que gostei demais. Aqui, o Rolling Stones mostra que consegue flertar com uma sonoridade mais acessível sem necessariamente perder sua personalidade.
Se existe uma faixa que representa o lado mais pesado do disco, é “Hit Me in the Head”. Para mim, é a música mais rock’n’roll do álbum. Os solos de guitarra são marcantes, o peso é muito maior e a sensação é quase de um soco no estômago. É também uma boa lembrança de que, apesar da idade, ainda existe muito poder nessa banda.
“Some of Us” apresenta outra faceta interessante, com uma pegada meio country. Gosto desse tipo de proposta porque mostra a versatilidade dos Stones e sua capacidade de trabalhar com diferentes subgêneros sem deixar de soar como Rolling Stones.
“Covered in You” segue uma linha mais pop, mas aqui a experiência foi um pouco mais morna comparada a outras faixas. Não achei uma música ruim, mas também não me chamou tanta atenção quanto outras do álbum. É uma faixa mais mediana dentro de um disco que apresenta momentos bastante interessantes.
E para fechar, “Beautiful Delilah” entrega um blues maravilhoso. É justamente o tipo de música que reforça a capacidade criativa e a versatilidade da banda e encerra o álbum de uma maneira muito satisfatória.

No balanço geral, Foreign Tongues me surpreendeu positivamente. Temos apenas uma música que realmente não gostei, uma que considero mediana e, no restante, faixas boas ou excelentes. S eeu fosse dar uma nota para este trabalho, seria um justíssimo 7,5.
Ou seja, é um álbum que recomendo não apenas aos fãs do Rolling Stones, mas também para quem não acompanha tanto a banda. Afinal, existe algo bastante interessante em observar um grupo com tantas décadas de carreira, com integrantes já em idade avançada, ainda disposto a criar, experimentar e entregar um trabalho acima da média. Pense bem: eles poderiam simplesmente estar aproveitando a vida e vivendo dos louros de tudo aquilo que já fizeram. E ninguém poderia questioná-los por isso. Mas existe um inconformismo artístico que parece continuar vivo com os Stones. E talvez seja justamente isso que faça o Rolling Stones continuar sendo uma banda tão especial. E aliás, e que banda, hein!?

