Sinopse: Um entregador de medicamentos se vê em uma luta desesperada pela sobrevivência contra criaturas mutantes e sedentas por sangue.
Assisti no dia de estreia “Resident Evil” (2026), de Zach Cregger, e, cara, estou simplesmente espantado com a qualidade desse filme. Cregger já vinha se consolidando como um grande nome e uma grande promessa do gênero de terror com “Noites Brutais” (2022) e, depois, com seu trabalho maravilhoso em “A Hora do Mal” (2025). Agora, com Resident Evil, acho que ele crava de vez seu nome dentro do gênero como um grande diretor.
E também preciso destacar a atuação de Austin Abrams. Ele é o personagem que praticamente carrega o filme inteiro nas costas, estando em cena durante quase toda a obra, do começo ao fim. E isso exige uma escolha muito acertada de elenco, porque, se a atuação dele não funcionasse, poderia colocar toda a experiência a perder. Felizmente, isso não acontece aqui. Abrams entrega uma atuação simplesmente impecável.
Ao longo do filme, vemos um personagem inicialmente tomado pelo medo e que, pouco a pouco, precisa aprender a sobreviver ao caos de Raccoon City. Mas não é apenas o medo que destrói esse personagem. Existe também uma esperança de sobrevivência, uma razão pessoal para continuar vivo, ligada a uma questão familiar e ao relacionamento que ele possui. Então, durante toda a história, ele tenta manter acesa essa chama de esperança, mesmo enquanto é consumido pelo medo. É justamente essa combinação que torna a atuação de Abrams tão interessante, porque acompanhamos alguém sendo destruído ao mesmo tempo pelo terror daquilo que está vivendo e pela necessidade de continuar lutando para sobreviver.
E ele funciona extremamente bem nos momentos de medo, terror, adrenalina e tensão. Abrams consegue transmitir essas sensações para o público sem precisar exagerar, fazendo com que a gente realmente compreenda o estado daquele personagem. Mas ele também funciona muito bem nas doses de humor presentes na obra de Zach Cregger. São momentos em que consegue arrancar risadas bastante sinceras do próprio público sem quebrar a tensão ou tirar o espectador daquele universo. Para mim, é uma atuação simplesmente impecável e fundamental para que o filme funcione tão bem.
E, voltando justamente para o trabalho de Zach Cregger, o mais incrível é como ele conseguiu traduzir extremamente bem o mundo e a ambientação de Resident Evil para as telas. Durante anos tivemos tentativas de levar essa franquia ao cinema, especialmente nas adaptações de Paul W. S. Anderson, mas Cregger toma uma decisão muito mais inteligente: em vez de simplesmente tentar reproduzir uma história específica dos jogos ou colocar personagens conhecidos como Leon Kennedy, Jill Valentine e Chris Redfield no centro da narrativa, ele cria uma história original dentro desse universo. E funciona muito bem.
O que mais me impressionou é que ele consegue fazer isso através de pequenos detalhes, de mínimos elementos que qualquer fã da franquia vai perceber, ainda mais alguém como eu, que zerou praticamente todos os jogos. Porque o que é Resident Evil? O jogo é, em grande parte, procurar chaves, encontrar itens para abrir portas, descobrir como chegar a determinado lugar e entender que você está em um ponto A e precisa chegar a um ponto B, mas para isso precisa realizar determinadas ações pelo caminho, sabendo administrar bem seu inventário.
Cregger entendeu muito bem isso e traz justamente essa lógica para essa história original. Bryan, muito bem interpretado por Austin Abrams, está no meio de todo aquele caos tentando cumprir sua missão, carregando uma entrega misteriosa que ele entende estar relacionada a um órgão destinado ao hospital de Raccoon City. E, durante sua jornada, ele precisa encontrar chaves, abrir portas, descobrir passagens e tomar decisões para conseguir avançar e sobretudo, sobreviver.

Além desses elementos de recursos escassos e dos itens necessários para conseguir passar por determinadas situações, o filme também trabalha muito bem outros elementos presentes nos jogos. Para qualquer fã, existem locais que são imediatamente reconhecíveis e que acabam se tornando icônicos dentro dessa ambientação, como a cidade de Raccoon City devastada, o hospital, os esgotos, o estacionamento e tantos outros espaços. Esses cenários dão uma ambientação ainda mais realista para essa história.
E acho que uma ideia muito bem sacada de Cregger é fazer com que essa história aconteça durante o inverno, com neve. Temos poucos filmes que exploram essa ambientação gélida dentro do gênero, e ele consegue aproveitar isso muito bem em Resident Evil. É uma escolha simples, mas que ajuda a construir uma identidade visual própria para essa história.
Muitos fãs da franquia provavelmente esperariam que o diretor pegasse a ideia original e trouxesse personagens como Chris Redfield, Jill Valentine, Leon Kennedy, entre outros, para uma nova aventura. E eu acho que existe, sim, essa possibilidade de vermos isso futuramente. Algum diretor provavelmente vai tentar fazer isso, e até poderia ser o próprio Cregger. Mas acho muito inteligente tanto os donos da franquia, no caso a Capcom, quanto os diretores entenderem que não é necessariamente importante trazer para o cinema uma ideia fiel ao que já existe nos jogos. Você pode ampliar e adaptar a maneira como aquela franquia funciona para as telonas e, ao mesmo tempo, criar uma ideia original dentro daquele universo.
E é exatamente isso que Cregger faz. Ele pega todos os elementos que são necessários e existentes dentro do jogo e coloca em um filme com uma história original. Se pensarmos na experiência, aquilo que ele trouxe para as telas muito bem poderia ter sido construído através de um jogo. Ele conseguiu absorver toda essa ambientação, pegando ideias dos jogos originais, principalmente de Resident Evil 1, 2 e 3, mas também trazendo um pouco da atmosfera de outros títulos, como Resident Evil 5 e Resident Evil 7.
E isso fica muito evidente na maneira como o filme trabalha seus recursos. É aquela sensação maravilhosa de estar em um lugar, encontrar uma arma, ficar sem munição e depois descobrir outro armamento. Cara, que fantástico. Parece simples, mas é justamente esse tipo de situação que faz parte da essência da experiência de jogar Resident Evil e que Cregger consegue transformar em linguagem cinematográfica.
E não é apenas isso. Aqui também temos além dos zumbis, monstros e uma exploração muito interessante do terror corporal e de um humor com a dose correta e certeiro. A maquiagem e os efeitos especiais são excelentes, muito bem realizados, e ajudam a tornar essas criaturas ainda mais impressionantes dentro desse universo.
Gostei também bastante da trilha sonora, que é bastante intimista e assustadora, assinada pelos irmãos Holladay (Hays e Ryan Holladay), que já tinham trabalhado com o diretor nas trilhas de “Noites Brutais” e “A Hora do Mal”. Algo que também destaco é que, Cregger não parte simplesmente para sustos fáceis para conseguir impressionar o espectador. Ele constrói momentos que muitas vezes não são previsíveis e que realmente assustam. Em vários momentos eu observei pessoas com a mão no rosto, com a mão na boca, impressionados com o que estava acontecendo. Também percebi muitas pessoas na sala demonstrando bastante aflição durante a sessão, o que mostra como o filme consegue criar uma reação física muito forte no espectador.

E talvez uma das coisas que mais me impressionaram seja justamente a capacidade de Cregger de prender o espectador do primeiro ao último momento do filme. Isso é extremamente raro, não apenas dentro do gênero de terror, mas também no suspense e em outros gêneros. Resident Evil consegue manter essa sensação de movimento constante, como se estivéssemos sempre tentando descobrir qual será o próximo objetivo, o próximo obstáculo ou o próximo perigo.
Por isso, acho que, de todos os trabalhos que Cregger fez até aqui, talvez Resident Evil seja um dos seus melhores trabalhos, até por estar mexendo num grande vespeiro, que é lidar com uma franquia de grande sucesso. Depois de “Noites Brutais” e “A Hora do Mal”, ele demonstra que consegue pegar uma propriedade intelectual gigantesca sem perder sua própria identidade como diretor.
E, como fã de Resident Evil, tenho certeza de que quem queria ver uma boa adaptação da sua franquia vai sair muito feliz da sessão. Mesmo que não seja uma história com os grandes personagens que já conhecemos, Cregger conseguiu absorver muito bem aquilo que existe no universo de Resident Evil. Eu diria, inclusive, que esta é, ao menos na minha opinião, a melhor adaptação de um game para as telonas.
Uma coisa que provavelmente vai dividir um pouco os fãs é o final. Talvez algumas pessoas esperassem outra coisa, mas eu entendo muito bem a escolha feita pelo diretor e, particularmente, gosto bastante dela. O final não é necessariamente coerente apenas com aquilo que foi apresentado ao longo do filme, mas é coerente com a história-base e original de Resident Evil. Cada pessoa terá sua opinião e eu sempre vou respeitar isso, mas, se alguém criticar o final simplesmente porque queria que ele fosse de outra maneira, acho que acaba entrando em uma argumentação meio sem nexo e contraditória. Afinal, se a cobrança é para que os diretores sejam fiéis à ideia-base de Resident Evil, o final de Cregger justamente segue esse caminho.
E é justamente por isso que gostei. Ele não precisa reproduzir uma história que já conhecemos para fazer Resident Evil funcionar. Ele entende o que existe por trás daquela experiência e consegue transformar isso em cinema. Para mim, é aí que está a grande força dessa adaptação.
“Resident Evil” (2026) é um filme que consegue respeitar uma das franquias mais importantes do horror nos videogames sem ficar preso à obrigação de simplesmente copiar aquilo que já foi feito. Temos boas escolhas de ambientação, recursos escassos, exploração, monstros, terror corporal, maquiagem, efeitos especiais, uma ótima trilha sonora e uma direção que consegue manter o espectador preso do começo ao fim.
Como fã da franquia, foi exatamente o tipo de adaptação que eu queria ver. E, sinceramente, saí da sessão simplesmente espantado com o que Zach Cregger conseguiu fazer.

Veja o trailer oficial (legendado) de Resident Evil:
