Sinopse: Uma frente de soldados alemães luta para sobreviver aos ataques soviéticos na Segunda Guerra Mundial, contando com a liderança do novo comandante, o condecorado oficial Steiner, que busca apenas uma coisa: a Cruz de Ferro para honrar sua família.
Poucos filmes de guerra conseguem transmitir a sensação de estar dentro de uma trincheira com tamanha intensidade. Cross of Iron (1977), dirigido por Sam Peckinpah e adaptado de “The Willing Flesh”, de Willi Heinrich, não parece interessado em transformar a Segunda Guerra Mundial em um grande espetáculo heroico. Pelo contrário, Peckinpah mergulha o espectador na rotina, na violência e no caos dos soldados alemães no front, construindo uma das retratações mais marcantes que já vi sobre a vida cotidiana nas trincheiras e nos bunkers de uma guerra.
Peckinpah escolhe um caminho pouco percorrido pelo cinema de guerra de sua época ao contar essa história pela ótica dos soldados alemães. É uma escolha que poderia facilmente cair em uma romantização ou em algum tipo de apologia, mas não é o que acontece aqui. Muito pelo contrário. Cross of Iron é extremamente crítico e deixa as atrocidades do nazismo muito claras. Isso já pode ser percebido nos créditos iniciais, quando imagens e filmagens reais da Segunda Guerra Mundial e de líderes alemães são utilizadas para contextualizar aquilo que estamos prestes a acompanhar. Existe quase uma intenção documental nessa escolha, como se Peckinpah estivesse nos lembrando constantemente de que, por trás daquela ficção, existiu uma guerra real.
E talvez seja justamente por isso que o filme provoque uma sensação um tanto incomum. Peckinpah faz com que o espectador acompanhe o cotidiano daqueles homens, veja suas relações, seus medos, suas frustrações e seus momentos de fragilidade. De alguma maneira, acabamos nos conectando com personagens alemães durante a Segunda Guerra Mundial. E isso inevitavelmente provoca uma pergunta desconfortável: devemos nos sentir conectados a personagens alemães em um contexto como esse?
A resposta do filme está justamente na maneira como Peckinpah constrói esses personagens. Ele não os transforma em heróis e tampouco tenta apagar o contexto histórico em que estão inseridos. A intenção não é fazer o espectador simpatizar com o nazismo, mas mostrar seres humanos inseridos em uma máquina de guerra, revelando as contradições, a brutalidade e a própria desumanização daquele ambiente.
O filme também aborda questões bastante sensíveis para a época e que, de certa maneira, soam surpreendentemente modernas. Entre elas está a questão da homossexualidade entre militares alemães, algo que evidentemente não era tolerado pelo regime nazista. É mais uma demonstração de como Peckinpah está interessado não apenas na batalha em si, mas nas relações humanas, nas regras impostas pelo sistema e nas contradições existentes dentro daquela estrutura militar.
E essa imersão não acontece apenas através da narrativa. Os efeitos sonoros são incríveis e talvez sejam um dos principais responsáveis pela sensação de realidade do filme. O caos de Cross of Iron não está somente na maneira como as batalhas são travadas nas trincheiras, mas também na forma como o som da guerra é apresentado. O barulho das armas, das explosões e das mortes cria uma experiência extremamente física. O som das explosões é particularmente realista, assim como as reações dos personagens diante delas.

Os efeitos práticos e o trabalho de maquiagem também são simplesmente impecáveis. Os corpos atingidos por balas, dilacerados e desmembrados são apresentados com uma realidade impressionante, sem suavizar aquilo que a guerra produz sobre o corpo humano. Peckinpah não parece interessado em esconder as consequências da violência. A guerra está ali em sua forma mais crua.
A edição também contribui diretamente para essa sensação de caos. Os cortes rápidos e a maneira como Peckinpah fragmenta determinadas sequências fazem parte da linguagem que ele utiliza para representar a desorientação e a violência do combate. Isso funciona de maneira especialmente interessante em um momento em que o Sargento Steiner está na enfermaria se recuperando. O personagem está perdido e, junto com ele, nós também ficamos sem saber exatamente o que é real e o que não é.
Essa sensação é ampliada pela combinação da trilha sonora original de Ernest Gold com áudios reais da guerra, incluindo registros de desfiles e pronunciamentos alemães. É uma mistura que dá ainda mais peso à ambientação e reforça a sensação de que estamos diante de uma memória fragmentada e brutal daquele conflito.
James Coburn entrega uma atuação memorável como o Sargento Steiner. Mas o que mais me chama atenção em seu trabalho é a maneira como o personagem é utilizado para provocar reflexões sobre a guerra e sobre o próprio homem. Steiner não é simplesmente um soldado eficiente em combate. Ele questiona aquilo que está ao seu redor e faz reflexões filosóficas que ficam martelando na nossa cabeça, como “O homem é aquilo que ele pensa que é” e “A guerra é extensão das políticas do Estado por outros meios”.
Essas ideias fazem de Steiner praticamente o oposto do padrão esperado de um soldado alemão dentro daquela estrutura. Ele se coloca em oposição aos pensamentos e costumes nazistas e, ao mesmo tempo, continua sendo um soldado extremamente eficiente. É justamente essa contradição que torna o personagem tão interessante. Coburn é fantástico tanto nas cenas de ação quanto nas de drama e tensão, sempre com um convencimento ímpar. Considero essa uma das atuações mais marcantes que já vi em um filme de guerra.
Todas as atuações são impressionantes, mas James Coburn realmente possui algo único. Steiner é um personagem que carrega boa parte das reflexões do filme e, através dele, Peckinpah consegue discutir guerra, Estado, ideologia, masculinidade, sobrevivência e a própria natureza humana sem transformar o longa em um discurso didático.
Maximilian Schell também entrega uma excelente atuação como o Capitão Hauptmann. É um personagem asqueroso, ditatorial e manipulador, um homem disposto a fazer qualquer coisa para salvar a própria pele e conseguir aquilo que deseja, inclusive conquistar a Cruz de Ferro. E é aqui que fica ainda mais evidente que o filme não está interessado apenas no conflito entre alemães e soviéticos.

Mais do que um filme sobre uma guerra maior, Cross of Iron é um filme sobre uma guerra interna. A Segunda Guerra Mundial e o confronto entre alemães e soviéticos funcionam como pano de fundo para uma história marcada pelos conflitos entre lideranças militares, interesses pessoais e ambições. Muitos diretores partem de uma grande guerra e, a partir dela, utilizam pequenos conflitos e situações para construir um drama maior. Peckinpah faz praticamente o caminho inverso. Ele utiliza uma guerra gigantesca como cenário para uma história pautada principalmente pelos conflitos internos de seus personagens.
E talvez seja por isso que eu tenha sentido até mesmo um certo quê de faroeste durante o filme. Existe algo na maneira como Peckinpah filma os confrontos, os homens, a violência e a própria sobrevivência que remete diretamente aos seus trabalhos dentro do western, do bangue-bangue. É como se algumas das características que fizeram sua carreira no faroeste encontrassem aqui um novo terreno para ser explorado.
Por isso, é incrível pensar que “Cross of Iron” (1977) não tenha vencido nenhum prêmio na época. Estamos falando de um dos grandes filmes antiguerra já realizados, uma obra que não precisa transformar seus soldados em heróis para falar sobre eles e que consegue mostrar a guerra sem glamour, sem romantização e sem esconder suas consequências.
Sam Peckinpah faz da Segunda Guerra Mundial não apenas um cenário de batalha, mas um espaço de destruição física e psicológica. E talvez seja justamente essa a grande força de Cross of Iron: mostrar que, em uma guerra, nem sempre a maior batalha acontece entre dois exércitos. Muitas vezes, ela acontece dentro dos seus próprios homens do pelotão.

Veja o trailer de Cruz de Ferro (1977) de Sam Peckinpah:
