“Disclosure Day ou “Dia D” (2026) certamente não é um dos filmes mais grandiosos da carreira de Steven Spielberg, mas ainda assim é uma obra bastante interessante e que eu recomendo, principalmente para quem é fã do diretor e para aqueles que possuem interesse pela temática ufológica. Hoje em dia, o assunto está bastante em alta, sobretudo com a popularização da sigla UAP, utilizada para designar aquilo que durante décadas conhecemos como OVNIs, os Objetos Voadores Não Identificados.
Uma das primeiras coisas que me chamou a atenção foi a atuação de Colman Domingo. Eu já havia assistido ao ator em “Sing Sing” (2024) e gostado bastante do seu trabalho. Aqui, embora não tenhamos grandes atuações de forma geral, ele acaba assumindo um protagonismo interessante dentro da narrativa, mesmo não sendo exatamente o personagem principal. Sua interpretação é madura, competente e, em determinados momentos, consegue transmitir emoções de forma bastante convincente. Existe uma humanidade muito grande em sua atuação, algo que ajuda a sustentar boa parte do envolvimento emocional do filme.
Outro aspecto bastante positivo é a trilha sonora de John Williams. Como já acontece há décadas, Spielberg e Williams demonstram uma sintonia impressionante. Estamos falando do compositor responsável por trabalhos memoráveis em filmes como “Tubarão”, “Indiana Jones” e “Contatos Imediatos do Terceiro Grau”, entre tantos outros. Em “Dia D”, ele entrega mais uma trilha sonora grandiosa, marcante e que ajuda muito na construção da atmosfera da obra.
O filme também consegue entreter em diversos momentos através de suas cenas de ação. Existem sequências que prendem a atenção do espectador, que criam envolvimento e que, em alguns casos, conseguem até arrancar algumas risadas. São justamente esses momentos que mantêm o interesse do público durante boa parte da projeção.

Créditos da imagem: Niko Tavernise/Universal Pictures/Amblin Entertainment.
O problema começa quando Spielberg decide dedicar uma parcela muito grande do filme ao aspecto conspiratório da narrativa. Grande parte da história gira em torno de agentes da CIA, membros do governo norte-americano e perseguições aos personagens principais. Esse contexto conspiratório ocupa praticamente o filme inteiro e, para quem entra na sala esperando uma obra focada na temática extraterrestre, isso pode se tornar bastante frustrante.
Em vários momentos senti falta de objetividade. Existem trechos que se tornam longos demais e que acabam enfraquecendo o ritmo da narrativa. Curiosamente, o filme ganha força justamente quando deixa de lado parte dessa abordagem conspiratória e finalmente abraça aquilo que o próprio título promete: o disclosure, a revelação pública da presença extraterrestre na Terra. É nesse momento que Spielberg realmente encontra o coração da história. A partir daí, o filme ganha peso, impacto e uma dimensão muito mais interessante.
É também nesse momento que passamos a ter uma visão mais ampla dos efeitos especiais utilizados na produção. E aqui encontro outro problema considerável. Visualmente, “Dia D” me parece um filme datado. E digo isso não pensando em como ele será visto daqui a dez ou quinze anos, mas já em 2026. Tenho a impressão de que determinadas escolhas tecnológicas foram feitas para reduzir custos ou mesmo para testar novos métodos de produção, mas o resultado final não me agradou.
As naves apresentadas no filme não possuem a grandiosidade que normalmente esperamos de uma produção de Spielberg. O mesmo acontece com boa parte dos extraterrestres mostrados ao longo da narrativa. Existe uma criatura que aparece próximo ao desfecho e que, essa sim, possui um trabalho visual bastante interessante. Porém, no geral, os efeitos gráficos chamaram muito mais minha atenção de forma negativa do que positiva.
Voltando aos aspectos que funcionam bem, algo que achei extremamente interessante foi a maneira como Spielberg retoma ideias que já faziam parte de sua filmografia. Existe aqui um flerte muito forte com a fantasia, algo que já aparecia de forma embrionária em “Contatos Imediatos do Terceiro Grau”, mas que acabou sendo desenvolvido posteriormente na minissérie “Taken”, de 2002, produzida pelo próprio Spielberg.
Inclusive, existe uma cena em “Dia D” que me lembrou imediatamente “Taken”. Em determinado momento, vemos uma criança acompanhada de um coelho se aproximando de uma árvore que, posteriormente, revela ser uma nave extraterrestre. O paralelo com a série é muito evidente e demonstra como Spielberg continua revisitando ideias que o acompanham há décadas.

Outro aspecto positivo está na mensagem que o filme procura transmitir sobre a temática ufológica, sobre o fenômeno das abduções e sobre a própria revelação da presença extraterrestre. Existe uma discussão bastante interessante sendo construída ali. O problema é que o caminho até ela é excessivamente longo. A sensação é de que Spielberg demora demais para chegar ao ponto principal da história. Com um pouco mais de objetividade, acredito que o resultado final poderia ter sido significativamente melhor.
Também considero interessante a forma como Spielberg escolhe lançar “Disclosure Day: Dia D” justamente em um momento em que a discussão sobre o fenômeno UFO, ou UAP (Unidentified Anomalous Phenomena), encontra-se em evidência nos Estados Unidos. Nos últimos anos, vimos audiências no Congresso norte-americano, depoimentos de ex-integrantes das Forças Armadas, membros de agências de inteligência e debates envolvendo a possível abertura de documentos relacionados a objetos voadores não identificados observados no espaço aéreo do país.
Esse contexto acaba dialogando diretamente com várias das ideias apresentadas pelo filme. Spielberg trabalha conceitos que fazem parte das discussões contemporâneas sobre o tema, como a possibilidade de programas secretos de investigação, a suposta recuperação de materiais de origem desconhecida e até mesmo alegações relacionadas à posse de tecnologias que não teriam sido produzidas pela humanidade. Independentemente da posição que cada pessoa tenha sobre essas alegações, é inegável que o diretor escolheu um momento extremamente oportuno para trazer essa discussão ao cinema.
Outro detalhe interessante é a utilização de referências clássicas da ufologia. O Caso Roswell, ocorrido em 1947 e considerado um dos episódios mais famosos da história do fenômeno UFO, aparece de forma bastante evidente dentro da narrativa. Isso também cria uma conexão interessante com Taken, série produzida pelo próprio Spielberg em 2002, que igualmente utilizava Roswell como um dos pilares de sua construção narrativa.

Algo que também me chamou a atenção foi a reação do público na sessão. Assisti ao filme em uma estreia lotada e percebi que muitas pessoas saíram sem entender completamente a história ou alguns de seus elementos centrais. E isso me parece ter uma explicação bastante clara.
Spielberg constrói sua narrativa utilizando uma enorme quantidade de referências ligadas diretamente à ufologia. Não se trata apenas de ficção científica convencional. Existe um diálogo muito forte com conceitos, relatos e pesquisas associadas ao fenômeno UFO. Para quem não possui familiaridade com esse universo, muitas das cenas podem parecer apenas fruto da imaginação do diretor ou uma grande fantasia sem explicação.
No meu caso, essa leitura foi diferente. Durante aproximadamente dez anos estive diretamente envolvido com a pesquisa e divulgação da ufologia, especialmente por conta do meu trabalho como editor da Revista ALPHA, uma publicação dedicada ao tema. Por isso, muitas das referências utilizadas por Spielberg me pareceram bastante claras. Grande parte dos conceitos presentes no filme remete diretamente aos estudos sobre abdução desenvolvidos por pesquisadores como Buddy Hopkins, John Mack e David Jacobs. Quem conhece minimamente o trabalho desses autores provavelmente compreenderá melhor determinadas passagens da narrativa. Já quem nunca teve contato com essas pesquisas talvez saia da sessão acreditando que Spielberg simplesmente criou uma sucessão de ideias fantasiosas sem qualquer fundamento. Na minha leitura, isso não acontece. Absolutamente tudo o que aparece no filme possui uma referência ou um paralelo dentro da literatura ufológica.
Existe ainda uma outra camada da narrativa que me chamou bastante atenção: o flerte que Spielberg faz com interpretações religiosas do fenômeno extraterrestre. Em determinados momentos, o filme sugere reflexões sobre a forma como a humanidade reagiria diante de um contato inequívoco com uma inteligência não humana. E uma das possibilidades levantadas pela própria narrativa é justamente a tendência de algumas pessoas enxergarem esses seres como figuras superiores ou até mesmo dignas de adoração. Essa é uma discussão extremamente interessante e que acompanha a ufologia há décadas. Ao longo do tempo surgiram diversos grupos, movimentos e seitas que passaram a associar entidades extraterrestres a funções tradicionalmente ocupadas por figuras religiosas. Inclusive, abordo isso em meu livro “Religiões UFO: ufolatria que invade mentes” (2024), publicado pela editora Cia do Mistério. Spielberg não aprofunda totalmente essa questão, mas a insere de maneira bastante perceptível dentro do filme, acrescentando uma dimensão filosófica e social que vai além da simples ficção científica. Trata-se de uma ideia que enriquece a narrativa e amplia o debate sobre os possíveis impactos culturais, espirituais e religiosos de um eventual contato com inteligências extraterrestres.
Talvez essa seja justamente uma das qualidades mais interessantes da obra. Mesmo que muitas pessoas não compreendam imediatamente todas as suas referências, o filme desperta curiosidade e pode incentivar o público a pesquisar mais profundamente os temas abordados.

No fim das contas, “Dia D” (2026) está longe de figurar entre os melhores trabalhos de Steven Spielberg. Também não é um dos filmes mais grandiosos de sua carreira. Ainda assim, trata-se de uma obra interessante, que possui boas atuações, uma trilha sonora excelente, algumas cenas de ação bastante eficientes e uma abordagem da temática ufológica que certamente agradará aos entusiastas do assunto.
Para quem é fã de Spielberg, vale a experiência. Para quem possui interesse pelo fenômeno UFO, eu diria que o filme se torna praticamente essencial. Apesar dos problemas de ritmo, da excessiva abordagem conspiratória e dos efeitos visuais que me decepcionaram, existe aqui uma discussão rica e cheia de referências que tornam a experiência bastante particular para aqueles que conhecem e acompanham o tema.

Assista abaixo o trailer de “Dia D” (2026), o novo filme de Steven Spielberg:
