Leviticus (2026), escrito e dirigido por Adrian Chiarella, é uma das boas surpresas que tive dentro do gênero do terror neste ano. É um filme que gostei bastante e que recomendo que vocês assistam, principalmente porque consegue trabalhar diferentes subgêneros, misturando terror sobrenatural, drama e violência de uma maneira bastante interessante.
Uma das coisas que mais me chamou a atenção em Leviticus é que uma das intenções do filme parece ser justamente fazer com que os próprios personagens tenham medo uns dos outros. E isso não acontece somente pela ideia da entidade que assume a aparência de quem você mais ama ou deseja, mas também por uma questão muito mais humana: o medo provocado pelo preconceito. Os personagens têm medo de assumir aquele relacionamento, de assumir aquilo que sentem e, principalmente, de serem aceitos pelo outro e pela sociedade como realmente são.
E acho muito interessante como Leviticus, de Adrian Chiarella, trabalha o preconceito contra a comunidade LGBTQIA+ utilizando justamente o elemento religioso de uma pequena e pacata cidade. Temos jovens pertencentes a uma igreja e uma realidade que, infelizmente, é bastante recorrente na vida de muitos gays, que precisam enfrentar não apenas o processo de se aceitar, mas também a dificuldade de serem aceitos dentro de determinados sistemas religiosos que podem ser extremamente preconceituosos, violentos e abusivos. É uma premissa muito interessante para construir uma abordagem crítica dentro de um filme de terror.
Gosto também da maneira como o filme utiliza o conceito da chamada “cura gay”, transformando-a em um evento ritualístico. Não exatamente como um método de cura, mas como uma forma de punição, fazendo com que a pessoa seja amaldiçoada. E isso funciona justamente como uma maneira de expor, através do sobrenatural, a violência e o preconceito direcionados contra pessoas gays. O terror acaba funcionando como uma representação de algo que, infelizmente, não é tão distante da realidade.
Também gosto muito de como o filme trabalha o sobrenatural junto ao drama. Entretanto, acho que Leviticus perde um pouco da sua força antes de chegar ao final. O filme utiliza boa parte do início para trabalhar o terror e o sobrenatural e, posteriormente, passa a se concentrar mais no drama, voltando a apresentar um terror mais brutal próximo do final. Particularmente, acredito que se essa ordem tivesse sido invertida, com o drama sendo mais trabalhado inicialmente e o terror e o sobrenatural crescendo principalmente na segunda metade e no final, o impacto poderia ter sido ainda maior.

Isso acontece também porque, a partir do momento em que o filme revela ainda na metade da história o segredo relacionado à “aparência” da entidade, existe uma certa perda do elemento de novidade e surpresa. A ideia continua funcionando, mas parte daquele mistério que sustentava o terror deixa de existir.
Mesmo assim, quando o filme trabalha com brutalidade e violência, ele funciona muito bem. Os efeitos práticos são muito bons, e isso chama ainda mais atenção quando percebemos que estamos diante de uma produção com orçamento baixo e recursos limitados. Nada aqui soa mal feito ou mal executado. Muito pelo contrário: o trabalho de efeitos práticos e maquiagem é excelente e demonstra mais uma vez como é possível fazer um terror visualmente muito eficiente sem depender de grandes recursos. Como os efeitos práticos funcionam bem, não é mesmo? Pra que CGI?
E preciso destacar também a atuação de Joe Bird como Naim. Ele consegue ser extremamente convincente, principalmente nos momentos de romance e drama, mas também demonstra bastante força quando o filme entra no terror. É uma atuação que consegue carregar muito bem o peso do personagem e, em vários momentos, ele praticamente carrega o filme nas costas. Gostei muito da sua atuação e da maneira como ele consegue transitar entre diferentes emoções sem perder a força do personagem.

O final, particularmente, eu esperava que tivesse um impacto maior. Talvez eu quisesse que o filme abraçasse ainda mais o sobrenatural e levasse algumas das suas ideias até consequências mais extremas. Não considero um final ruim, mas, assim como penso que poderia ter existido uma escolha melhor na ordem dos acontecimentos, também acredito que poderia ter existido um caminho mais interessante para o desfecho.
E existe ainda uma questão que me chamou bastante atenção: a escolha do título Leviticus. Não sei se essa foi exatamente a intenção de Adrian Chiarella, então vejo isso muito mais como uma possibilidade interpretativa, mas a referência ao livro de Levítico, no Antigo Testamento, parece bastante significativa diante de tudo o que o filme aborda.
Levítico está profundamente relacionado a questões de pureza, impureza, pecado, moralidade, regras e aquilo que deveria ou não ser considerado “limpo”. Dentro da lógica apresentada pelo filme, é possível enxergar uma relação bastante curisosa: uma comunidade religiosa que enxerga pessoas gays como pecadoras, imorais ou como indivíduos que precisam ser “corrigidos” ou “limpos”. O próprio conceito de “cura” utilizado na história pode ser interpretado justamente dentro dessa lógica de contaminação e purificação. Se essa associação com o título foi intencional, ela torna a crítica do filme ainda mais importante, porque o terror passa a dialogar diretamente com a maneira como determinados discursos religiosos transformam a sexualidade do outro em algo que precisa ser combatido, eliminado ou purificado.
E é justamente aí que Leviticus encontra seu ponto mais alto: quando o sobrenatural deixa de ser apenas uma ferramenta para provocar medo e passa a representar uma violência que existe no mundo real. O monstro, a maldição e o ritual acabam funcionando também como metáforas para o medo, a repressão e a violência que podem surgir quando uma sociedade decide que determinada forma de amar é errada.
Por isso, Leviticus é um filme que gostei bastante. Não acho que seja perfeito e acredito que algumas escolhas de estrutura e principalmente o desfecho poderia ter sido melhor, mas é uma obra que consegue trabalhar diferentes subgêneros, construir uma crítica interessante e executar muito bem algumas de suas ideias. E, principalmente, consegue fazer isso com poucos recursos, mas com muita criatividade.
É mais uma grata surpresa do gênero do terror e um filme que eu recomendo que vocês assistam. E, claro, sem preconceitos.

