“O Homem Elefante” (1980), dirigido por David Lynch, é um filme que se sustenta principalmente pela força de sua história e pelas atuações memoráveis de uma história baseada em fatos.
A interpretação de John Hurt como John Merrick é simplesmente impressionante, diria que é uma das melhores do cinema e das obras de David Lynch. Ele constrói um personagem extremamente humano: inteligente, gentil, sensível, sendo alguém que contrasta totalmente com a forma como é visto pelas pessoas, que simplesmente o rejeitam e o tratam como uma aberração por conta de sua aparência. Sendo que inclusive, é colocado como uma atração de circo, o “Homem Elefante”, como vemos no filme e em seu título.
Esse conflito entre essência e aparência é o que move o filme e sustenta sua principal mensagem sobre rejeição, preconceito e a dificuldade da sociedade em lidar com o que foge do padrão.
O trabalho de maquiagem é um dos mais impactantes que já vi no cinema. A caracterização de Merrick (interpretado por John Hurt) é extremamente fiel ao Joseph Merrick real (ver imagem abaixo), e isso contribui muito para a imersão. É daquelas transformações que não parecem apenas maquiagem, mas uma extensão do próprio personagem, sendo que em alguns momentos eu fiquei me perguntando: quem está atuando? Essa pessoa realmente existe? Cara, é de uma realidade que impressiona! John Hurt emociona e impressiona demais nas cenas de violência, de rejeição, mas sobretudo nas cenas de reflexões e de peso dramático, onde Merrick chora e quase nós choramos juntos.


Além disso, o filme conta com atuações muito sólidas de Anthony Hopkins e Anne Bancroft, embora o destaque absoluto permaneça é claro com John Hurt. No entanto, Anthony Hopkins também merece um destaque pela sua atuação como o Dr. Frederick Treves, cirurgião do Royal London Hospital, que tem inicialmente um olhar de curiosidade e um interesse acadêmico pelo Merrick, que após conhecê-lo melhor, muda para um tratamento empático, amoroso e de profunda amizade, gerando um laço dramático e emotivo importante para o enredo.
Gosto também da escolha estética de Lynch ao filmar esta obra em preto e preto, porque casa muito bem com a proposta de representar uma Londres da época vitoriana, que dá até um certo tom gótico ao filme. Sem mencionar o trabalho de câmera/filmagem que acho muito bonito.
Mais do que um drama biográfico, “O Homem Elefante” (1980) é um filme que tem uma mensagem bem poderosa e profunda sobre empatia, aceitação e humanidade. Ele expõe de forma direta como o medo e a ignorância levam ao afastamento do “diferente”, ao mesmo tempo em que constrói uma relação emocional muito forte com o espectador.
É curioso também como uma obra desse nível não tenha sido premiada no Oscar, especialmente considerando a qualidade do trabalho de maquiagem e da atuação principal. Inclusive, uma curiosidade é que após críticas, a Academia na edição seguinte do Oscar criou a categoria de “Melhor Maquiagem e penteados”. Ainda assim, o reconhecimento em premiações como o BAFTA, vencendo nas categorias Melhor Filme, Melhor Ator e Melhor Desenho de Produção, são mais do que justas.
Assim sendo, David Lynch com “O Homem Elefante” (1980), nos apresenta um filme extremamente poderoso, com uma mensagem atemporal e que se sustenta tanto pela técnica quanto pelo impacto emocional. Uma das obras mais marcantes da filmografia de David Lynch, que já havia me impressionado muito com a sua obra “Blue Velvet”, tendo colocado aquele filmes durante semanas na minha cabeça, agora me emociona com esse drama biográfico imperdível e que se torna um dos meus filmes preferidos da vida.

