Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964), dirigido por Glauber Rocha, é sem dúvidas alguma, uma das obras mais importantes do cinema brasileiro e talvez uma das mais completas dentro do que o cinema nacional já produziu em termos de identidade, linguagem e de proposta estética. Até o momento, não assisti nada tão completo em termos de cinema nacional como essa obra de Glauber.
Sinopse: O vaqueiro Manuel se revolta contra a exploração imposta pelo coronel Moraes e acaba matando o seu algoz. Ele passa a ser perseguido por jagunços e foge com a esposa, Rosa. O casal se junta aos seguidores do beato Sebastião, que promete o fim do sofrimento abraçando um catolicismo místico. No entanto, o matador de aluguel Antônio das Mortes está à espreita e persegue o grupo. Manuel e Rosa escapam e encontram o cangaceiro Corisco, que aceita Manuel em seu bando e o rebatiza como Satanás.
Gostaria de começar minha crítica falando sobre a trilha sonora de “Deus e o Diabo na Terra do Sol” que é simplesmente maravilhosa e única. Os poemas escritos pelo próprio Glauber Rocha e musicados por Sérgio Ricardo dão ao filme uma força quase ritualística. É, sem exagero, uma das melhores trilhas do cinema brasileiro — na minha opinião a melhor — pela forma como se integra à narrativa e à construção simbólica da obra.
Visualmente, o filme é impressionante. Há uma estética que dialoga com o neorrealismo italiano e também com o faroeste americano, mas tudo isso filtrado e com um toque genuinamente brasileiro. O sertão também vejo como um ponto alto da obra, não somente para a belíssima fotografia, mas porque o sertão não é apenas um cenário, mas também um personagem dessa história, lembrando um pouco o sertão retratado na nossa literatura. Diga-se que o filme foi gravado em sua grande maioria das cenas em Monte Santo, no sertão da Bahia, além de outros locais do mesmo estado, tais como Feira de Santana e Canudos. A fotografia, o jogo de câmera e até a captação de som contribuem para essa sensação de realidade nua e crua da vida do sertanejo. Os figurantes, o ambiente, tudo transmite essa imagem de um povo que é sofrido, marginalizado, vivendo em condições extremas.

O texto é outro ponto altíssimo. Os diálogos são fortes, carregados de significado, muitas vezes com uma construção que remete à literatura de cordel, reforçando ainda mais essa identidade cultural da obra de Glauber. A fé é o motor da trama, pois é ela que guia os personagens, principalmente Manoel, que usa a sua fé para guiar suas decisões e que também o leva à perdição.
Falando agora de estrutura do filme, vejo que ela é muito bem definida em: o primeiro ato mergulha no culto e na fé, com a figura do beato Sebastião; o segundo ato traz o silenciamento do sistema, com a repressão a esse movimento religioso, algo que remete diretamente à história de Canudos e à figura de Antônio Conselheiro (fato este que é citado no filme). Já o terceiro ato é marcado pela violência travestida de justiça, com o cangaço, trazendo referências claras à história de Lampião e Maria Bonita, além de representar uma perda e distanciamento gradual da fé. Esse último ato é especialmente impactante, principalmente por sua violência, tendo a inserção e aprofundamento dos personagens Corisco e Antônio das Mortes.

Gosto bastante de como a Igreja é inserida nessa história, pois me lembra como ela fora inserida dois anos antes em “O Pagador de Promessas” (1962) de Anselmo Duarte. A presença da Igreja também é colocada de forma crítica, como uma instituição que, ao se ver ameaçada, atua dentro de um sistema de controle e silenciamento, um ponto muito bem trabalhado dentro da narrativa dessa obra de Glauber Rocha.
O filme ainda é repleto de cenas marcantes e históricas: a abertura com a música de Heitor Villa-Lobos sobre imagens do sertão e o close de um animal morto; a sequência final com Manuel e Rosa correndo enquanto ouvimos que “o sertão vai virar mar e o mar vai virar sertão”; a câmera girando ao redor de um beijo; Corisco enfrentando Antônio das Mortes; e Manuel subindo a ladeira com uma pedra na cabeça e entre outras cenas. Todas certamente ficam e ficarão marcadas na minha memória.
Agora em termos de atuações, as atuações são excelentes! Geraldo Del Rey como Manuel e Othon Bastos como Corisco entregam performances bem intensas, marcantes e fundamentais para o impacto do filme. Personagens fortes, bem construídos e com uma carga dramática impressionante. Diria que na primeira metade do filme, Geraldo Del Rey carrega a obra, porém da metade em diante, Othon Bastos toma todo protagonismo pra si.
“Deus e o Diabo na Terra do Sol” (1964), é um filme que tem cara de Brasil, diria que seria o maior representante do cinema nacional em todos os aspectos: na música, na estética, na narrativa e nos temas, com uma abordagem política, cultural e profundamente simbólica. Precisamos falar mais do cinema nacional e divulgar mais sobre ele, e sobretudo, falarmos mais dessa obra histórica de nosso cinema.

