Assisti “A Vila”, filme de 2004 dirigido por M. Night Shyamalan, e simplesmente adorei o filme. Mas entendo perfeitamente que esse é um tipo de obra que não vai agradar todo mundo. É um filme que exige paciência do espectador, principalmente porque sua proposta está muito mais interessada em construir uma atmosfera, desenvolver seus personagens e apresentar gradualmente as peças de sua história do que em entregar respostas imediatas. Se você é uma pessoa que gosta de observar o roteiro, as atuações, o desenvolvimento dos personagens e cada detalhe da narrativa, acredito que existe uma grande possibilidade de gostar bastante do filme, assim como aconteceu comigo.
“A Vila” funciona, para mim, quase como uma narrativa dividida em três momentos. O primeiro é dedicado à construção daquele universo, ao desenvolvimento dos personagens e, principalmente, à criação do mistério. Shyamalan faz questão de nos apresentar aquela pequena comunidade, suas regras, suas tradições e os limites que existem naquele lugar. Ao mesmo tempo, consegue fazer com que o espectador se aproxime emocionalmente de alguns personagens, principalmente de Lucius Hunt, interpretado por Joaquin Phoenix, e Ivy Walker, interpretada brilhantemente por Bryce Dallas Howard.
E é justamente essa construção que considero um dos grandes méritos do filme. Antes de revelar qualquer coisa, Shyamalan faz com que você conheça aquelas pessoas e compreenda as relações existentes dentro daquela comunidade. Existe uma preocupação muito clara em construir personagens antes de simplesmente conduzir a história para suas reviravoltas. E isso faz toda a diferença quando chegamos à metade do filme.
Porque “A Vila” é um daqueles filmes em que aquilo que você acreditava estar assistindo é completamente desconstruído. Existe uma quebra de expectativa bastante precoce, e talvez seja justamente aí que esteja a principal razão pela qual algumas pessoas não vão gostar da obra. Shyamalan revela ao espectador uma informação que poderia facilmente ter sido guardada para o final, e isso muda completamente a maneira como enxergamos aquela história. Mas, comigo, essa escolha funcionou muito bem. O que poderia ser uma grande frustração acaba funcionando porque o roteiro consegue ser muito bem amarrado e, principalmente, porque aquilo que foi apresentado anteriormente ganha um novo significado.


É justamente essa capacidade de recontextualizar a própria narrativa que considero muito interessante. O filme não depende apenas da surpresa da revelação; ele precisa fazer com que tudo aquilo que veio antes continue funcionando depois que a verdade é apresentada. E, para mim, funciona. Não encontrei aqui grandes pontos sem nó ou elementos que parecessem simplesmente esquecidos pelo roteiro. Pelo contrário, a história da vila se torna ainda mais interessante quando começamos a compreender o sistema de crenças que sustenta aquele lugar.
E talvez seja justamente aí que “A Vila” apresente uma das suas reflexões mais interessantes. A comunidade vive confinada dentro de um sistema construído sobre tradições, crenças e medos. As pessoas aprendem desde cedo que aquela é a única realidade possível, que existe um limite que não pode ser ultrapassado e que aquilo que está além daquele mundo representa uma ameaça. É uma forma de controle social baseada naquilo que as pessoas acreditam ser verdade.
Mais do que simplesmente falar sobre conservadorismo, vejo o filme trabalhando com ideias de conformismo, fanatismo, isolamento e manipulação das crenças. Quando uma comunidade inteira é educada para acreditar nas mesmas coisas, questionar essas verdades passa a significar desafiar não apenas uma regra, mas toda a estrutura daquele universo. E é interessante como Shyamalan utiliza o medo para sustentar esse sistema: aquilo que as pessoas temem é justamente aquilo que impede que elas ultrapassem os limites que foram estabelecidos.
Também gosto muito da maneira como o filme trabalha a ideia do amor como uma força capaz de romper essas barreiras. E aqui Bryce Dallas Howard assume um protagonismo que, inicialmente, você provavelmente imaginaria que pertenceria a Joaquin Phoenix. Lucius parece ser construído como o personagem central da história, mas Ivy acaba assumindo uma importância muito maior conforme a narrativa avança. E Bryce Dallas Howard entrega uma atuação simplesmente impressionante. É uma personagem movida pelo amor e pela paixão, e é justamente esse sentimento que faz com que ela ultrapasse barreiras que pareciam impossíveis de serem atravessadas.
Joaquin Phoenix também está excelente. É uma atuação muito boa e um personagem que inicialmente parece carregar sobre si todo o protagonismo da história. Mas o elenco ainda reserva outro grande destaque: Adrien Brody, interpretando Noah Percy. Dentro de um papel coadjuvante, ele entrega uma atuação muito convincente, principalmente pela maneira como constrói um personagem com problemas mentais. Existe algo realmente perturbador na interpretação dele, justamente porque ele consegue transmitir uma personalidade bastante peculiar sem transformar o personagem em uma caricatura.

E gosto muito de como “A Vila” consegue transitar entre diferentes gêneros ao longo de sua narrativa. O início possui uma atmosfera muito próxima do terror, trabalhando o medo e o sobrenatural, enquanto o suspense vai ganhando cada vez mais espaço. Depois da grande revelação, a obra passa a se aproximar muito mais do drama, e isso poderia facilmente fazer com que o filme perdesse força. Para mim, porém, não aconteceu. O drama funciona porque fomos apresentados anteriormente àqueles personagens e conseguimos compreender emocionalmente o que está acontecendo com eles.
A fotografia também merece destaque. Existe uma estética muito bonita e muito coerente com a proposta do filme, principalmente nas cenas em que o suspense e o horror são trabalhados. Shyamalan sabe construir uma atmosfera que não depende exclusivamente de sustos ou de violência para provocar tensão. Muitas vezes, é justamente aquilo que não vemos que cria o medo. Se você gostou de “A Bruxa” (2015) de Robert Eggers ou então “Midsommar” de Ari Aster, provavelmente você gostará desta obra, apesar dela seguir caminhos totalmente diferentes dessas outras citadas. A trilha sonora fica por conta de James Newton Howard, tendo também um grande destaque na construção da atmosfera de suspense e mistério. Seu trabalho é tão reconhecível que ele teve indicação ao Oscar de Melhor Trilha Sonora Original com essa obra.
E essa é também uma das coisas que mais gosto na direção de Shyamalan. É um diretor que, em muitos filmes, já me fez ter a sensação de que começa com uma ideia muito boa, desenvolve bem durante boa parte da narrativa e acaba perdendo força no desfecho. Não tive essa experiência com “A Vila”. Aqui, pelo menos para mim, o diretor conseguiu conduzir a história até o final sem que a proposta perdesse o sentido.
É um filme que talvez não funcione para quem espera uma narrativa convencional ou para quem não gosta de ter suas expectativas quebradas antes do final. Mas, para mim, essa escolha foi justamente uma das coisas que fizeram “A Vila” funcionar tão bem. É uma obra que pede paciência, atenção e, principalmente, que o espectador esteja disposto a assistir de peito aberto.
Gostei demais do filme. Pela construção dos personagens, pelo roteiro, pelas atuações, pela fotografia, pelas reviravoltas e pela maneira como consegue transformar uma história aparentemente simples sobre uma pequena comunidade em uma reflexão sobre medo, crença, controle, isolamento e até mesmo sobre aquilo que estamos dispostos a fazer para proteger as pessoas que amamos.
“A Vila” é uma grata surpresa para mim e fica aqui a minha recomendação. Assista com paciência, sem esperar que o filme entregue aquilo que você imagina que ele vai entregar. Talvez justamente aí esteja a melhor experiência que ele pode proporcionar.

