Sinopse: Durante a Guerra do Vietnã, jovens recrutas do Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos são submetidos a um rigoroso e brutal treinamento que busca destruir suas fragilidades e transformá-los em soldados preparados para matar. Entre eles está Leonard “Pyle” Lawrence, um recruta com dificuldades de adaptação que se torna alvo constante de humilhações e pressão psicológica.
Sob o comando implacável do Sargento Hartman, os soldados são moldados por uma rotina de violência, disciplina e doutrinação. Quando finalmente chegam ao Vietnã, porém, descobrem que o verdadeiro horror da guerra está muito além do treinamento.
É curioso como, quanto mais conheço a filmografia de Stanley Kubrick, mais percebo que talvez seja um erro reduzi-lo ao circuito formado por “2001: Uma Odisseia no Espaço” (1968), Laranja Mecânica (1971) e O Iluminado (1980). “Nascido para Matar” (1987) é um ótimo exemplo disso. Embora seja inconfundivelmente um filme de Kubrick, estamos diante de uma obra que deixa um pouco de lado aquela estética mais experimental e ostensivamente autoral de alguns de seus trabalhos mais conhecidos para construir um dos retratos mais contundentes sobre a guerra, a formação militar e a desumanização do indivíduo.
Adaptado do livro “The Short-Timers”, de Gustav Hasford, o filme é essencialmente uma obra antiguerra. Mas Kubrick não se limita a mostrar o campo de batalha. Antes disso, ele mostra como um ser humano é preparado para chegar até lá. A primeira parte, ambientada no treinamento dos fuzileiros navais, é fundamental justamente por apresentar esse processo de transformação. O indivíduo precisa abandonar sua personalidade, sua sensibilidade e até mesmo sua própria identidade para ser convertido em soldado. A violência física é apenas uma parte desse processo. A violência psicológica e ideológica é talvez ainda mais importante.
E é justamente nesse aspecto que Nascido para Matar se aproxima de outro grande filme de guerra de Kubrick, Glória Feita de Sangue. São obras muito diferentes visualmente e narrativamente, mas existe entre elas uma mesma preocupação: questionar a lógica militar e a maneira como indivíduos são submetidos a estruturas de poder que transformam vidas humanas em peças de uma engrenagem. Kubrick já havia demonstrado isso em Glória Feita de Sangue e, de certa maneira, retorna ao tema aqui com uma abordagem ainda mais violenta.
Digo que gosto mais deste trabalho do que outros mais “autorais” do diretor, mas não que “Nascido para Matar” seja visualmente simples. Muito pelo contrário. O trabalho de fotografia, efeitos especiais e, principalmente, de som é primoroso. A reconstrução do cenário de guerra e das batalhas do Vietnã possui uma fisicalidade impressionante, fazendo com que a violência pareça menos uma sequência espetacular de ação e mais uma experiência caótica, realista e desconfortável.

Falando de atuações, se existe uma atuação que imediatamente se destaca, é a de R. Lee Ermey como o Sargento Hartman. É uma interpretação absolutamente memorável. Hartman é o instrutor responsável por transformar jovens recrutas em soldados, utilizando humilhação, agressividade, insultos e pressão psicológica como ferramentas de treinamento. Ele precisa ser insuportável, abusivo e assustador, e Ermey faz tudo isso com um nível de convencimento impressionante.
Existe uma razão para essa atuação possuir tamanha autenticidade: antes de se tornar ator, Ermey havia servido no Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos e trabalhado como instrutor. Sua experiência militar certamente contribuiu para a construção de Hartman, mas o resultado vai além de simplesmente “interpretar um sargento”. Ele transforma o personagem em uma representação quase caricatural, porém extremamente plausível, da lógica de formação militar que Kubrick está criticando.
O outro grande destaque é Vincent D’Onofrio, como Leonard Lawrence, o recruta apelidado de “Pyle”. E aqui temos talvez o personagem mais importante do filme, a partir dele compreendemos a primeira metade do filme. Pyle começa como alguém aparentemente inútil, inocente, desajeitado e incapaz de acompanhar os demais. Por isso, torna-se o principal alvo da humilhação e da pressão psicológica dentro do pelotão.
A transformação do personagem é perturbadora justamente porque não acontece de maneira gratuita. Kubrick mostra o processo. Pyle é constantemente humilhado, pressionado e submetido a uma lógica na qual sua fragilidade é tratada como algo que precisa ser eliminado. Aos poucos, aquilo que deveria ser um treinamento para transformá-lo em soldado acaba contribuindo para destruí-lo psicologicamente.
E D’Onofrio entrega uma atuação extraordinária ao construir essa mudança. Ele passa de um homem aparentemente inocente e inofensivo para alguém completamente tomado pela loucura. É uma das demonstrações mais eficientes do filme de como a violência institucional e a pressão psicológica podem produzir consequências devastadoras. E Kubrick deixa uma questão bastante incômoda no ar: até que ponto a loucura de Pyle é individual e até que ponto ela é uma consequência direta do sistema que o criou? Essa loucura é algo muito comum até os dias de hoje em militares americanos que passam pelo treinamento militar ou tentam retomar suas vidas no pós-guerra.
O restante do elenco também funciona muito bem, mas D’Onofrio e Ermey tem duas atuações completamente diferentes, mas que representam lados complementares da mesma crítica: de um lado, aquele que aplica a violência como método, já do outro, aquele que é destruído por ela.

A trilha sonora também merece destaque. Vivian Kubrick, filha do diretor, ficou responsável pela composição da música original, trabalhando especialmente com sintetizadores, enquanto a seleção de canções populares ajuda a construir a identidade do filme e a atmosfera de sua época. É uma trilha que consegue ser irônica, agressiva e, em determinados momentos, quase desconcertante. Canções como “Hello Vietnam”, de Johnny Wright, “Surfin’ Bird”, do The Trashmen, e “Paint It, Black”, dos Rolling Stones, são excelentes exemplos de como Vivian Kubrick utiliza músicas populares para criar contraste e reforçar a sensação de absurdo presente na narrativa.
E talvez seja justamente aí que esteja uma das maiores forças do filme: Nascido para Matar não depende de uma grande história espetacular ou de uma sucessão de acontecimentos extraordinários para prender o espectador. O interesse está na construção dos personagens, no texto, na direção e na maneira como Kubrick apresenta a guerra. O filme nos conduz pela formação, pela transformação e pela experiência daqueles soldados, fazendo com que a própria estrutura narrativa seja parte da crítica.
Existe também uma crítica muito forte à Guerra do Vietnã, mas ela vai além do conflito específico. Kubrick questiona a própria lógica da guerra e, principalmente, a maneira como os Estados Unidos constroem a imagem de seus soldados como libertadores, corretos e inevitavelmente vencedores. O filme desmonta essa ideia aos poucos, mostrando que a noção de vitória pode ser uma construção ideológica dentro do próprio ambiente militar.
E o final reforça justamente essa percepção: mesmo diante de toda a destruição, das mortes e da desumanização, existe uma necessidade de acreditar que aquilo tudo possui algum significado, que existe um vencedor e que a missão cumprida representa alguma forma de triunfo. Mas, quando olhamos para tudo o que aconteceu, e pelo conhecimento histórico que previamente temos sobre a Guerra do Vietnã, fica difícil enxergar vitória onde houve tamanha perda humana. É uma das ironias mais fortes do filme: talvez a maior derrota esteja justamente na necessidade de chamar aquilo de vitória.
É fascinante perceber como minha opinião sobre Kubrick vem mudando conforme conheço melhor sua filmografia. Durante muito tempo, é natural que a atenção fique concentrada em O Iluminado, 2001: Uma Odisseia no Espaço e Laranja Mecânica, afinal, são obras gigantescas e extremamente marcantes. Mas quanto mais conheço seus outros filmes, mais percebo o quanto existe de extraordinário fora desse circuito mais conhecido.
Nascido para Matar reforça ainda mais minha vontade de conhecer as outras obras de Kubrick, principalmente aquelas que dialogam com a guerra. Se Glória Feita de Sangue já demonstrava sua capacidade de construir um cinema antiguerra poderoso, aqui ele amplia essa discussão ao mostrar não apenas o horror do conflito, mas o processo que prepara um ser humano para participar dele.
Para quem gosta de cinema de guerra, é uma recomendação que considero indispensável, principalmente para quem quiser enxergar o gênero para além da ação e entender como a guerra pode ser, antes de tudo, uma máquina de destruir e reconstruir seres humanos à sua própria imagem.

Veja o trailer de “Nascido para Matar” (1987), dirigido por Stanley Kubrick:
