Sinopse: Um jovem policial de Nova Jersey, em uma atitude impensada, mata dois inocentes. Para protegê-lo, seus colegas forjam seu suicídio, mas o corregedor da polícia não acredita na história.
Poucos filmes conseguem reunir um elenco tão impressionante e, ao mesmo tempo, encontrar espaço para que cada um de seus grandes nomes brilhe à sua maneira. Em Cop Land (1997), James Mangold faz exatamente isso: reúne Sylvester Stallone, Robert De Niro, Harvey Keitel, Ray Liotta e outros grandes nomes, mas, principalmente, consegue extrair de cada um deles atuações que servem perfeitamente à proposta da história.
Sylvester Stallone encontra aqui um dos papéis mais interessantes de sua carreira justamente por colocá-lo longe da zona de conforto dos heróis imbatíveis que marcaram boa parte de sua filmografia, como Rambo, Cobra e Os Mercenários. Como o xerife Freddy Heflin, Stallone interpreta um homem aparentemente acomodado diante da corrupção que domina a cidade onde vive. Ele sabe o que acontece, percebe os abusos e a relação promíscua entre policiais e criminosos, mas prefere fazer vistas grossas. É justamente essa passividade que permite ao filme trabalhar primeiro o lado mais dramático do personagem, construindo sua personalidade e fazendo com que o espectador compreenda suas limitações, seus conflitos e a maneira como ele chegou àquela situação.
E Stallone funciona muito bem nesse registro. Há algo aqui que remete ao que ele já havia demonstrado em Rocky: um ator capaz de sustentar um personagem muito mais pela expressão, pelo silêncio e pela construção emocional do que pela força física. Quando a narrativa finalmente exige uma postura mais próxima do Stallone que conhecemos dos filmes de ação, a mudança não parece gratuita. Mangold utiliza os dois lados do ator de maneira muito inteligente, fazendo com que a transformação de Freddy tenha peso dentro da própria história.
Harvey Keitel também parece estar em território bastante familiar. Interpretando um policial corrupto e envolvido com o crime organizado, ele entrega uma atuação irretocável e demonstra novamente uma característica que marcou parte de sua carreira: a capacidade de interpretar figuras moralmente ambíguas, criminosas ou ligadas ao submundo, como já havia feito em Cães de Aluguel, Pulp Fiction e Caminhos Perigosos (Mean Streets). Keitel possui uma presença naturalmente intimidadora, e Mangold sabe muito bem como utilizá-la.
Ray Liotta, por sua vez, entrega uma atuação maravilhosa como um policial dividido entre o certo e o errado. Seu personagem transita constantemente entre a figura do policial que ainda possui algum senso de justiça e alguém profundamente envolvido com aquele sistema de corrupção. É justamente nos momentos de maior explosão emocional que Liotta mais se destaca, trazendo intensidade e imprevisibilidade ao personagem.
E então temos Robert De Niro, que funciona quase como a peça que começa a desmontar toda aquela estrutura. Interpretando um corregedor da polícia responsável por investigar os acontecimentos, De Niro não precisa estar constantemente em cena para deixar sua marca. Seu personagem possui uma função quase de despertar Freddy para aquilo que ele próprio se recusava a enxergar.
De Niro alterna muito bem entre a indignação diante da corrupção policial e uma postura mais contida, quase resignada, quando percebe até onde aquela investigação consegue chegar. Seus olhares, sua maneira característica de interpretar e a própria presença em cena tornam seus momentos especialmente marcantes. É aquela participação que, mesmo sem dominar o filme, acrescenta um peso enorme à narrativa.


E talvez uma das maiores qualidades de Cop Land esteja justamente em não utilizar esse elenco para fazer o filme se transformar em uma sucessão de cenas de ação. Pelo contrário. Mangold constrói um thriller policial de ritmo mais cadenciado, preocupado principalmente com a investigação, com a corrupção, com os dilemas morais e, acima de tudo, com a construção de seus personagens.
Isso poderia facilmente tornar o filme arrastado, mas não acontece. A narrativa mantém a atenção justamente porque existe uma tensão crescente em torno daquilo que Freddy sabe, daquilo que ele prefere ignorar e do momento em que precisará finalmente tomar uma decisão. O filme vai acumulando essas pequenas peças até chegar ao seu terceiro ato, quando todo esse desenvolvimento finalmente encontra uma recompensa em ótimas cenas de ação.
É interessante também perceber como Mangold utiliza a própria imagem de Stallone contra as expectativas do espectador. Estamos acostumados a vê-lo como o homem que resolve os problemas pela força, mas aqui ele passa boa parte do filme justamente sendo alguém que não consegue ou não quer agir. Quando essa postura finalmente muda, a ação ganha um significado muito maior do que teria se estivesse presente desde o início.
Cop Land é, portanto, um filme que merece ser lembrado não apenas pelo seu elenco extraordinário, mas pela maneira como James Mangold consegue colocar todos esses grandes atores a serviço de uma história que privilegia personagens, investigação e atmosfera. É um filme policial que não depende da ação para funcionar e que encontra sua força justamente na construção lenta de uma cidade tomada pela corrupção e de um homem que precisa decidir se continuará fazendo parte dela ou se finalmente irá enfrentá-la.
Recomendo demais Cop Land pela qualidade da direção de James Mangold, pelo roteiro, pelo desenvolvimento dos personagens, pela história e, principalmente, pela capacidade de extrair o que há de melhor de um elenco tão poderoso. Um excelente thriller policial dos anos 90 e mais uma demonstração de como Mangold sabe trabalhar muito bem histórias pautadas por tensão, investigação e personagens em conflito.

Veja o trailer de Cop Land (1997), dirigido por James Mangold:
