Por conta do lançamento de “Dia D – Disclosure Day” (2026), estou fazendo uma viagem pela filmografia de Steven Spielberg e resolvi começar por “O Terminal” (2004). E, sinceramente, que filme legal. Que filme divertido!
Nunca tinha assistido a “O Terminal” e me surpreendi bastante. É uma obra que não costuma ser tão lembrada quando falamos da filmografia de Spielberg, que acaba sendo mais associada a clássicos como “Tubarão” (1975), “Contatos Imediatos do Terceiro Grau” (1977), “Indiana Jones” (1981), E.T. – O Extraterrestre” (1982), A Lista de Schindler (1993), “Jurassic Park” (1993) e tantos outros. Ainda assim, trata-se de um filme extremamente agradável e que funciona muito bem dentro da proposta que apresenta.
Temos aqui uma comédia com alguns elementos dramáticos, mas é um filme muito mais pautado no humor. E funciona. Eu me diverti muito assistindo e dei boas risadas ao longo da sessão.
Grande parte disso se deve à atuação maravilhosa de Tom Hanks, um dos meus atores preferidos. Ele interpreta Viktor Navorski, um estrangeiro vindo de um país fictício que acaba ficando preso em um aeroporto após uma crise política em sua nação impedir sua entrada nos Estados Unidos. O que poderia facilmente se tornar uma premissa limitada é transformado por Spielberg em algo extremamente humano, mágico e divertido.
É incrível como Steven Spielberg consegue colocar esse toque de magia em praticamente todos os seus filmes. Talvez isso venha também de toda a sua experiência com a fantasia e a ficção científica, mas existe algo muito característico em sua direção que está presente aqui. “O Terminal” (2004) tem muito da sensibilidade de Spielberg, tanto na direção quanto no roteiro.
Além das inúmeras situações cômicas, existe também um elo dramático bastante tocante. O filme trabalha emoções muito simples, mas extremamente eficazes. Existe inclusive um pequeno mistério envolvendo uma lata carregada pelo personagem de Tom Hanks. Durante boa parte da narrativa, nos perguntamos o que há dentro dela e qual o significado daquele objeto. Quando a resposta finalmente chega, percebemos que se trata de algo simples, mas profundamente importante para a trajetória daquele personagem. E evidentemente não vou revelar mais do que isso.
Tom Hanks está brilhante. Assistindo ao filme, fica muito claro o cuidado do ator em construir alguém que não domina a língua inglesa. Por isso, inclusive, recomendo assistir legendado. Grande parte da riqueza da interpretação está justamente na forma como ele fala, erra, aprende e evolui ao longo da narrativa. Aos poucos, acompanhamos não apenas a adaptação do personagem ao aeroporto, mas também seu crescimento na comunicação com as pessoas ao seu redor.
E, claro, o talento cômico de Tom Hanks aparece com força. Há cenas realmente muito engraçadas e várias delas funcionam justamente pela sua entrega ao personagem.


Outra coisa que achei bastante interessante nessa obra é a forma como Spielberg trabalha, de maneira muito sutil, questões relacionadas à imigração, ao controle de fronteiras e à burocracia que envolve a entrada de estrangeiros em território norte-americano. Existe uma cena que me chamou bastante atenção, quando o personagem de Tom Hanks está sendo interrogado pelo chefe de segurança do aeroporto. Em determinado momento, ele tenta convencê-lo de que a guerra em seu país deveria lhe causar medo e fazê-lo buscar algum tipo de proteção ou auxílio das autoridades americanas. A resposta do personagem é simples, mas muito poderosa: ele afirma que não tem medo. Afinal, como alguém poderia ter medo da própria casa? Como alguém poderia ter medo do próprio lar?
Gosto de como Spielberg insere esse tipo de reflexão sem transformar o filme em um discurso político explícito. Tudo acontece de forma muito natural, dentro da narrativa e até mesmo do humor que permeia a obra. Ao mesmo tempo, a cena acaba levantando questões interessantes sobre pertencimento, identidade e sobre a maneira como diferentes países enxergam aqueles que chegam de fora, sobretudo os EUA.
Essa cena também me fez pensar em como isso é algo que continua extremamente atual. Existe, muitas vezes, uma construção da imagem dos Estados Unidos como uma nação associada à liberdade, à oportunidade e ao acolhimento. No entanto, “O Terminal” parece questionar essa narrativa ao mostrar como a burocracia, o controle de fronteiras e a desconfiança em relação ao estrangeiro podem transformar a vida de uma pessoa em um verdadeiro limbo. Foi impossível não enxergar ali uma reflexão sobre quem tem o poder de definir o que é liberdade e para quem ela é concedida. Afinal, enquanto determinados discursos exaltam valores como liberdade e democracia, a realidade frequentemente se mostra muito mais complexa para aqueles que chegam de fora. Spielberg não faz essa discussão de maneira explícita ou panfletária, mas a insere com inteligência dentro da própria jornada de Viktor Navorski, tornando a reflexão ainda mais interessante.
Talvez seja justamente por isso que o filme continue tão atual. Apesar de ter sido lançado em 2004, ele aborda temas que seguem presentes nos debates sobre imigração, fronteiras, pertencimento e a forma como diferentes sociedades lidam com aqueles que consideram estrangeiros.
Esse filme é mais uma demonstração da habilidade de Spielberg em inserir temas humanos e sociais dentro de histórias aparentemente simples, enriquecendo a narrativa sem jamais perder sua leveza ou seu charme.
Também gostei bastante da participação de Catherine Zeta-Jones. Inicialmente, achei que o desenvolvimento amoroso entre os personagens talvez não funcionasse tão bem, mas fui conquistado ao longo do filme. Existe uma química muito agradável entre os dois e o relacionamento acaba encontrando seu espaço dentro da história.
Outro destaque é a trilha sonora. Em determinado momento, ouvi a música e imediatamente pensei: “isso tem cara de John Williams”. E realmente era! Mais uma vez, o lendário compositor, parceiro de longa data de Spielberg, entrega um trabalho excelente que contribui muito para o charme e para a atmosfera do filme.
O mais impressionante em O Terminal é que ele consegue funcionar do início ao fim. É um filme leve, divertido, emocional quando precisa ser e que ainda entrega um desfecho bastante tocante, encerrando muito bem a jornada de seu protagonista.
Não considero uma obra-prima dentro da filmografia de Steven Spielberg, mas é um filme muito bom. Talvez um daqueles títulos que acabam ficando escondidos entre os gigantes da carreira do diretor, mas que merecem muito mais atenção do que recebem.
Uma ótima surpresa e uma recomendação fácil para quem ainda não conhece.

Assista o trailer de “O Terminal” (2004) de Steven Spielberg:
