Sinopse: Jodie Foster e Martin Sheen protagonizam esta história arrepiante de uma garota de treze anos que vive numa casa antiga com o pai recluso… sozinha. Será? Parece que ela esconde um segredo sombrio, determinada a preservá-lo custe o que custar!
A Menina do Fim da Rua (1976), é um daqueles filmes que conseguem construir um mistério em cima de outro mistério. A pergunta inicial é simples: onde está o pai de Rynn? Mas, conforme a história avança, surge uma questão ainda mais complicada: o que fazer quando você precisa esconder um crime? Nicolas Gessner transforma essas duas perguntas em um suspense que consegue nos prender do início ao fim.
Gosto de como o mistério é trabalhado e conduzido na obra de Gessner. Ele consegue partir de um mistério inicial, sobre o paradeiro dos pais de Rynn, para depois desenvolver outro que ganha cada vez mais força: o que e como fazer para ocultar um crime? Sabe aquelas situações em que você fica encrencado, tenta consertar e acaba se complicando ainda mais? Eu resumiria “A Menina do Fim da Rua” como algo dessa maneira.
Gessner também é muito atento aos detalhes dos objetos do cenário. Ele demonstra que cada objeto e cada situação foram minimamente pensados, para que não haja pontos sem nós dentro da história, principalmente em relação ao que está sendo ocultado e à maneira como isso foi ocultado. É interessante perceber como pequenos elementos apresentados ao longo do filme acabam ganhando importância conforme a história avança.
Também é incrível como o longa consegue nos apresentar personagens de uma pequena cidade dos Estados Unidos em que todo mundo parece ser tomado pela curiosidade e eu diria até pela intromissão. Essa característica faz com que os personagens acabem se conectando de alguma maneira com a história de Rynn e contribui bastante para aumentar a sensação de que existe sempre alguém observando, perguntando ou tentando descobrir alguma coisa.
E, claro, temos Jodie Foster como Rynn, em uma atuação espetacular aos 13 anos. Ela fez este filme no mesmo ano em que participou de Taxi Driver, de Martin Scorsese, pelo qual recebeu uma indicação ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante. Posteriormente, Foster também se tornaria conhecida por trabalhos como Acusados (1988), que lhe rendeu o Oscar de Melhor Atriz, O Silêncio dos Inocentes (1991), Contato (1997) e O Quarto do Pânico (2002). Aqui, assim como em Taxi Driver, ela apresenta uma atuação muito madura para a sua idade, e justamente o reconhecimento de seu trabalho na obra de Scorsese ajudou a abrir espaço para que ela assumisse papéis como este dirigido por Gessner.
O filme ainda conta com Martin Sheen, sendo ele o repugnante Hallet, que apresenta um comportamento abusivo. Sua presença funciona muito bem dentro da história porque ajuda a reforçar essa sensação de ameaça constante que cerca Rynn.

Outro ponto que gostei bastante é a trilha sonora incrível de Christian Gaubert, com o uso de baixo, piano e aparentemente sintetizadores. Não somente a trilha sonora é muito boa, mas também o uso da música clássica em alguns momentos do filme é muito bem aproveitado para construir o clima da obra. O uso do Concerto para Piano nº 1 em Mi menor, de Frédéric Chopin, contribui bastante para essa atmosfera e cria uma combinação interessante com a composição de Gaubert.
Uma curiosidade é que o filme teve algumas polêmicas na época em que foi lançado por causa de uma cena de nudez envolvendo a personagem de Jodie Foster, que tinha apenas 13 anos. Porém, a nudez não foi realizada pela atriz. A cena foi feita por sua irmã mais velha, Connie Foster, que tinha 21 anos e serviu como sua dublê de corpo. Ainda assim, a decisão de colocar uma adolescente no centro de situações sexuais e de violência tão pesadas recebeu críticas e gerou controvérsia. A própria Jodie Foster teve conflitos com a produção em relação à inclusão da cena.
E acho interessante justamente separar as duas coisas. A mesma característica que tornou o filme controverso, a idade de Foster e o material sexual envolvendo sua personagem, também acabou contribuindo para que a atuação dela fosse considerada tão impressionante. É justamente por isso que vale separar a qualidade da performance da decisão problemática de colocar determinadas situações no filme.
Recomendo demais que vejam A Menina do Fim da Rua (1976). Temos boas atuações, um bom texto, uma excelente direção e uma trilha sonora muito marcante. É um suspense que sabe trabalhar seus mistérios, seus personagens e principalmente os pequenos detalhes, conseguindo nos prender enquanto Rynn tenta lidar com segredos que ficam cada vez mais difíceis de esconder.

Assista o trailer original de “A Menina do Fim da Rua” (1976):
